FRONTEIRA GAÚCHA: SANTANA DO
LIVRAMENTO
MEMORIAL DO RIO GRANDE DO SUL
CADERNO DE HISTÓRIA, no. 36
GOVERNO DO
ESTADODO RS – YEDA CRUSIUS
SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA –
MÔNICA LEAL
MEMORIAL DO RIO GRANDE DO SUL
– VOLTAIRE SCHILLING
- INTRODUÇÃO:
SANTANA DO LIVRAMENTO, A FRONTEIRA ENTRE O BRASIL E O PRATA
1. A GENTE
DA TERRA
2. O GADO
3. A COLÔNIA
DO SACRAMENTO
4. AS
CIDADES
5. O
NOVECENTOS
6. O
FRIGORÍFICO ARMOUR
7. ÉPOCA DE
GUERRA
8. O PÓS
GUERRA
9. ...E
CHEGA A BR
10. A
PRESENÇA NEGRA NA FRONTEIRA
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
- Fontes de consulta
- Anexos
- Dados sobre a autora
INTRODUÇÃO:
SANTANA DO LIVRAMENTO, A FRONTEIRA
ENTRE O BRASIL E O PRATA
A pradaria
imensa da campanha gaúcha continua no norte do Uruguai, formando uma região
homogênea e de relacionamentos.
Esta região constituiu-se numa fronteira
entre índios Pampianos e Guaranis, entre Portugueses e Espanhóis, entre os
primeiros habitantes indígenas, os europeus e africanos que chegaram depois.
Em Santana do Livramento tudo se misturou.
A convivência e a integração tornaram-se sua marca característica.
1.GENTE DA TERRA
O território situado na margem esquerda do Rio
Uruguai foi visto pelos conquistadores ibéricos como uma unidade geográfica:
Banda Oriental ou Continente do Rio Grande de São Pedro. Realmente, podemos pensar numa região
contínua, sem limites naturais, como rios intransponíveis ou grandes montanhas.
Situado no meio de duas potências, sem
prata nem ouro, sua ocupação foi tardia. Nem espanhóis nem portugueses
conseguiram manter sua ocupação, sendo afinal dividido entre eles.
Ao sul do Rio Ibicuí, estendem-se tapetes
de gramíneas, numa paisagem aberta em que a planura só é quebrada pelas
coxilhas arredondadas.
È a região denominada Campanha Gaúcha e
constitui-se na região campestre por excelência do Rio Grande do Sul. È a
paisagem do gaúcho e do campeiro, cujo estereótipo difundiu-se por todo o
estado.
Os campos limpos ou pradarias estendem-se
ao Uruguai, formando uma continuidade, no que se denomina vegetação uruguaiense.
Nessas pradarias habitaram os índios
Charruas, Minuanos, Bohanes. Chanás e Yarós, parcialidades dos Pampianos. Além
da Planície dos Pampas, esses índios tinham em comum a língua quíchua e muitos
costumes.
Os Pampianos eram muito morenos, quase
negros, com cabelos lisos e desgrenhados. Eram fortes e atléticos, com nariz
aquilino. Vestiam-se com peles de animais, e alimentavam-se de carne de
avestruz, capivara, veado, tatu e ratão do banhado, além de aves e peixes. Suas
principais armas de caça e luta eram as boleadeiras, pedras polidas revestidas
de couro e unidas entre si.
Os Guaranis eram mais baixos, rosto
redondo, zigomas salientes, cabelos lisos e escorridos. Vindos há dois milênios
da Amazônia, ocuparam espaços nos vales dos rios Paraguai, Paraná, Uruguai e
Jacuí. Seu sistema econômico baseava-se principalmente nas plantações de milho,
feijão, mandioca e porongo, além da pesca, que dessecavam e defumavam.
O idioma guarani era a língua geral,
entendido por todos os índios da região. Os nomes da maioria dos rios e
acidentes geográficos desta região são guaranis. Por exemplo:
- Uruguai –
rio dos caracóis
- Ibicuí –
rio das areias
- Quaraí –
rio dos buracos
- Arapeí
- rio dos lambaris
- Cuñapiru –
rio da mulher doente
- Taquarembó
– rio das taquaras envenenadas
- Itaquatiá
– pedra dos olhos d’água
- Upamaroti
– lagoa clara
- Ibirapuitã
– rio das árvores vermelhas
- Mandubi -
rio dos amendoins
- Cati – rio do mato ralo
As Coxilhas de Santana, Negra e de Haedo,
pequenas elevações entre 200 e 400 metros, separam o sul do Rio Grande do norte
do Uruguai. Constituem-se também em divisores
de águas aos rios das bacias do Ibicuí, do Arapeí e do Negro. A linha
divisória atual usa essas coxilhas para marcar os limites entre Brasil e
Uruguai, no sistema dos pontos mais altos, entre os rios Quaraí e Jaguarão (à
leste). A cidade de Santana do Livramento – ou do Parto Feliz – está assentada
exatamente sobre a coxilha de Santana, antecipando seu caráter fronteiriço e de
grande porto seco da região.
2. O GADO
Pelo Tratado
de Tordesilhas o território brasileiro chegava até Santa Catarina. Todo o Rio
grande do Sul pertencia à Espanha.
Em 1580 Portugal foi anexado à Espanha,
unindo-se as duas Coroas na pessoa de Felipe II, que era neto de d. Manoel, o
Venturoso. Para Portugal, terminava aí o Tratado de Tordesilhas e o território
situado entre o Rio Uruguai e o Oceano Atlântico, chamado de Banda Oriental (ou
leste) pelos castelhanos, estava liberado para quem o
ocupasse.
Os primeiros ocupantes organizados em
cidades foram os Ííndios Guaranis, aldeados e catequisados pelos padres
Jesuítas, a partir de 1626. Para alimentar essa populações e mantê-las nos
povoados, os jesuítas trouxeram gado bovino da Banda Ocidental do Rio Uruguai
(atuais Argentina e Paraguai) onde já haviam
povos ou vilas, também chamados Missões.
Essa criação de gado desenvolveu-se graças
aos esforços dos padres e ao cuidado dos índios guaranis. Cada povoação possuía
uma estância de grande dimensão,
situadas ao sul do Rio Ibicuí, onde seus afluentes formavam rincões, que
guardavam e dividiam o gado. O território que hoje pertence à Santana do
Livramento, foi estância missioneira, numa produção comunitária, onde os donos
eram todos os índios do povoado.
Os bandeirantes, mestiços de S. Paulo,
caçavam índios para trabalhar como escravos nas suas plantações. As Missões, ao
possuírem entre 3.000 e 5.000 índios, cada uma, era alvo da cobiça dos paulistas.
Os guaranis foram aprisionados ou mortos. Os sobreviventes fugiram para o outro
lado do rio e abandonaram seu gado.
Esse gado ficou solto e reproduziu-se
extraordinariamente. Os castelhanos e os portugueses desgarrados, índios e
negros fugidos passaram a caçar o gado, para tirar o couro. Este era um produto
de grande valia nesses tempos. Começou a época da Courama: não se tratava de criar
rebanhos, mas de perseguir e desgarrotear as reses, para retirar-lhes o
couro.
Surgiu um tipo humano diferenciado, um
mestiço que pertencia a dois mundos: o europeu e o indígena; moravam nas
toldoarias dos índios mas vendiam os couros aos comerciantes vindos do Além Mar. Eram
aventureiros e elementos foragidos, homens sem lei nem rei, que viviam em
condições selvagens, chamados de gaudérios ou gaúchos.
O gado bovino, que se espalhou pelo Pampa,
modificou para sempre a vida dos Índios Pampianos. Suas toldoarias, antes
cobertas por folhas de palmeiras, passaram a ser cobertas por couro de vaca.
Seu regime alimentar também se modificou radicalmente, passando a carne bovina a ser a grande iguaria.
O cavalo, também trazido da Europa, foi uma sensação para os
índios. Eles se tornaram exímios cavaleiros e temíveis guerreiros, com suas
lanças e boleadeiras, agora montados.
Apenas em 1682 os Índios Guaranis voltariam a ocupar suas Missões, ou
Povos, a leste do Rio Uruguai. Incentivados pela Coroa Espanhola, criaram novos
aldeamentos e estâncias.
3. A COLÔNIA DO SACRAMENTO
A Colônia do Sacramento foi o grande sonho
português, com a implementação de uma cidade portuguesa na foz do Rio da Prata,
e a incorporação da Banda Oriental ou Continente de S. Pedro aos domínios
portugueses.
Para isso, Laguna foi fundada com o objetivo
de apoiar a Colônia e povoar a região. O interesse português era enorme, pois a
Coroa Espanhola proibia o comércio exterior nos
rios que compõem a Bacia do Rio
da Prata: Uruguai, Paraguai e Paraná. Esses rios correspondiam a verdadeiras
estradas pelo interior da América, possibilitando um comércio muito ativo de
fazendas, vinho, azeite, sal e escravos africanos. Recolhiam, na volta, couros,
sebos e prata das minas de Potosi, na Bolívia.
Desde 1640 Portugal havia reconquistado sua
soberania. A colônia foi fundada em 1680, para competir com o porto de Buenos
Aires. Até 1750, quando passou
definitivamente ao domínio espanhol, a Colônia do Sacramento foi um importante
entreposto de importação e exportação, normalmente ilegal, num incentivo ao
contrabando.
Em 1750 a Espanha trocou a Colônia pelos
sete povoados missioneiros situados a leste do Rio Uruguai, aceitando a
presença portuguesa até o Rio Ibicuí, afluente do Uruguai. Esse tratado,
chamado de Madri, era vantajoso a Portugal, pelo grande desenvolvimento das
Missões e pelo reconhecimentode seu direito ao Continente, ao menos a uma parte
dele.
O gado estava muito valorizado, a partir do
início do século. Os paulistas haviam encontrado minas de ouro, prata e
diamantes nas Minas Gerais e precisavam alimentar os mineiros. O gado era
levado em tropas até Sorocaba e depois para as Gerais. No litoral norte e ao
longo do rio Jacuí começaram a instalar-se estâncias para reter o gado e
esperar os tropeiros.
Os
Índios Guaranis não quiseram entregar suas cidades para os arquiinimigos
portugueses e iniciaram uma guerra contra eles e contra os espanhóis, que
haviam assinado o tratado. Entre os dois exércitos, os guaranis foram
derrotados. Muitos abandonaram as Missões, empregando-se como peões. Os padres
jesuítas foram expulsos dos territórios de Portugal 3e Espanha, e vieram
administradores civis e militares para substituí-los.
O Trado de Santo Ildefonso, assinado em
1777, garantiu a navegação exclusiva
pelos rios da Bacia do Prata aos espanhóis e retomou os Sete Povos. A
linha da fronteira seria formada pelos divisores de água entre as bacias do Rio Uruguai e os
que se lançam ao Atlântico. Foram
estabelecidos campos neutrais ao longo da fronteira, onde não se poderiam contruir povoações, fortes ou guardas.
Os portugueses dedicaram-se à ocupação
do seu território, através da doação de
terras aos interessados no povoamento. Essa doação era feita pela autoridade
militar e correspondia a três léguas de terra, chamada de sesmaria. A posse de
propriedade de terra diferenciava socialmente o beneficiado e levava-o a
defender não apenas os interesses de Portugal, mas os seus próprios.
A decadência dos Sete Povos, nesse momento
administrados pelos espanhóis, de maneira corrupta e omissa, com um tratamento
ultrajante aos índios, tornou possível a conquista das Missões por quarenta
aventureiros. Eles eram comandados pelo
desertor José Borges do Canto. Em 1801 a notícia de uma guerra entre Portugal e
Espanha foi o estopim para a invasão, apoiados por particulares com dinheiro,
panos, bois, cavalos e escravos.
Essa conquista não teve efeito legal, mas a
fronteira moveu-se novamente até o Rio
Ibicuí, confirmada pelo Acordo Provisório de 1804, entre os delegados do Vice
Rei do Prata e do governador Brigadeiro Roscio.
Portugal queria seu Continente e iria
tentar conquista-lo. A oportunidade surgiu quando o Imperador Napoleão invadiu
a Espanha e Portugal, na Europa.
Os reis espanhóis ficaram presos na França,
mas o regente D. João mudou sua capital para o Rio de Janeiro. . Instalado na
América, a partir de 1808 assistiu de
camarote à independência da Argentina e à deportação do Vice Rei espanhol. O
novo Vice Rei, nomeado pelo Conselho de Regência, Javier Elio, assumiu em
Montevidéu. Impedido de governar pelos rebelde, Elio pediu ajuda a D. João, cunhado do rei
espanhol.
Em 1811,
D. João ordenou a D. Diogo de Souza, Capital Geral do Rio Grande de S.
Pedro, a invasão da Banda Oriental, com o auto denominado Exército Pacificador.
Os orientais e argentinos preferiram fazer as pazes com os espanhóis,
desconfiados dos portugueses.
Estes retornaram ao Acampamento de D.
Diogo, às margens do Rio Ibirapuitan, fixando a fronteira no Rio Quaraí. Em 1814
começaram a ser distribuídas as sesmarias na
região que hoje corresponde à
Santana do Livramento, a antigos soldados e oficiais do Exército Pacificador.
O binômio estancieiro e militar, que
caracterizou a ocupação lusitana no Rio Grande do Sul, permitiu o alargamento
das fronteiras, pois o dono de terra, gado e escravos, juntamente com seus
peões, constituía uma unidade militarizada, que garantia a posse da terra.
A ocupação espanhola visava à organização
de vilas, com a doação de terras ao redor. Era um sistema mais caro que o
português, com as decisões centralizadas em Buenos Aires ou Montevidéu.
Os diferentes sistemas de ocupação explicam o cordão de cidades no lado
brasileiro: Uruguaiana, Quaraí, Bagé. Jaquarão, entre outras. No lado uruguaio, as
cidades de Rivera e Artigas seriam
fundadas bem mais tarde.
Havia também o interesse estratégico pelo
Rio da Prata. Logo após a expulsão dos franceses de Portugal, D. João mandou
vir um exército de lá, sob as ordens do General Frederico Lecór. Em agosto de 1816, com dez mil homens, Lecór atacou a Banda Oriental por diversos
pontos da fronteira. Em janeiro do ano seguinte, entrou em Montevidéu,
aplaudido pelos grandes negociantes.
Em 1821, o Uruguai foi incorporado ao Reino
Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com o nome de Província Cisplatina.
Ainda que por pouco tempo, Portugal havia
chegado ao Rio da Prata, retomando sua Colônia do Sacramento.
4. AS CIDADES
Distribuídas as primeiras sesmarias em 1814, apenas em 30
de junho de 1823 a pequena aglomeração de Nossa Senhora do Livramento vai
conseguir licença para edificação de uma capela. Quando a capela ficou pronta,
o padre que veio rezar a primeira missa considerou o local inóspito e
alagadiço. Outra capela foi construída, na Cochilha de Sant’ana, num local bem
seco.
Em 1848 o pequeno povoado passou a ser
freguesia, já como Santana do Livramento. Em 1857 foi elevado à categoria
de Vila, desmembrando-se de Alegrete, e
finalmente, em 1876 passou a ser chamada de Cidade.
Em 1828, o Uruguai havia conquistado sua
independência do Brasil, ajudado pela Argentina e Inglaterra. Sendo Montevidéu
uma capital estrangeirada, os produtos europeus eram comercializados no seu
porto – tecidos, roupas, louças, arames – chegavam em carretas até Santana e eram distribuídos para
Itaqui, Rosário, Alegrete e S. Gabriel. As carretas voltavam com erva, banha,
fumo, produtos agrícolas valorizados na capital uruguaia.
Em 1841, Santana mantinha sua rota comercial com Montevidéu,
incrementada pelo tráfego de armas e mantimentos, em troca de couros e tropas.
Foi o grande porto (seco) dos farroupilhas.
Em 1843, O Uruguai foi dividido em dois: o
sul, com sua capitalcheia de comerciantes, e o norte, ocupado pelos
insurgentes, apoiados pelos argentinos
de Rosas. Montevidéu era uma cidade cosmopolita, sendo que os europeus
consistiam em mais da metade da sua população.. Era a capital de um país pobre
e rural. Com a guerra, muitos
estancieiros ficaram arruinados.
Veio a Guerra contra Rosas, em que os
brasileiros invadiram o Uruguai, e com as províncias argentinas, lutaram contra
Buenos Aires, vencendo o Presidente Rosas. O preço das estâncias caiu pela
metade e muitos oficiais brasileiros, inclusive o gral. Osório e o Gral. Souza
Neto, da Revolução Farroupilha.
Nasce aí o portunhol, dialeto falado no
norte do Uruguai e no sul do Rio Grande, marcando a presença brasileira na
região da fronteira. Junto com a língua, os brasileiros trouxeram os seus
filhos e escravos, que eram batizados
por padres do Brasil, como
brasileiros.
Durante a Guerra do Paraguai, depois que os
paraguaios invadiram S. Borja, Itaqui e Uruguaiana, ficaram cercados nessa
cidade vizinha. Em 1865, o Imperador
Pedro II veio a Uruguaiana para a
rendição dos invasores e aproveitou para vir a Livramento. A cidade tinha dez mil habitantes, um comércio florescente,
e já possuía um teatro, em frente à Igreja. O Conde d’Eu, genro do monarca,
escreveu no seu diário que Santana parecia
uma cidade europeia, em que as casas situavam-se no meio de jardins verdejantes, com choupos e
acácias, roseiras, pessegueiros e marmeleiros.
A Vila de Ceballos foi criada em 1862, no
Cuñapiru, pois os uruguaios temiam o avanço brasileiro. Era também uma
tentativa de retomar o tráfico de mercadorias através das carretas para
Montevidéu.
Em 1867 foi criada oficialmente Rivera, 341
habitantes urbanos. Os vizinhos pediram às autoridades para mudar a planta da cidade para junto de
Santana, e não mais no Cuñapiru, como desejava o governo uruguaio. Mesmo assim,
as praças principais das duas cidades estão distantes uma da outra. A Igreja e
a Prefeitura, marcas do governo, mantinham a separação das cidades.
A maior parte da população vivia no campo.
A inexistência de cercas facilitava o subemprego, com famílias arranchadas
dentro das propriedades. Dedicavam-se às atividade sazonais, como os rodeios e
marcações, e ao contrabando. Roubavam gado num lado da fronteira e vendiam do
outro lado.
As muitas guerra e revoluções serviam para
ocupar essa população nômade, que considerava a luta como um momento de
liberdade e alegria, em que se podia carnear à vontade.
A distância das capitais e a falta de comunicação com outras
cidades, levaram a população de Santana
do Livramento a procurar seus vizinhos uruguaios, desconhecendo os limites
nacionais. A vivência regional levou â formação de uma mentalidade singular. As
duas cidades estavam quase coladas uma na outra, vivendo como se fossem uma só,
igualmente distantes de suas capitais, igualmente esquecidas por elas.
Em 1892, o Uruguai fez um esforço imenso
para unir a Capital com o Interior, investindo em cinco ferrovias até
Montevidéu. Uma dessas ferrovias chegava a Rivera. Em 24 horas as pessoas
podiam chegar até Montevidéu, e um pouco mais, embarcadas a Buenos Aires.
Santana do Livramento passou a estar ligada
ao Prata, não apenas recebendo e repassando mercadorias. Essa ligação se
traduzia em viagens, recebimento de
jornais e livros, consultas médicas, enfim uma influência direta da cultura
platina, mais próxima relativamente que a brasileira.
Assim como o norte do Uruguai recebeu uma
forte influência brasileira, o sul do Rio Grande recebeu uma influência enorme
do Prata, nessa época.
Essa
boa nova, de modernidade e facilidade de contato com duas das maiores
metrópoles da América, na época, Montevidéu e Buenos Aires, foi obscurecida por
outra notícia de 1895. Após a Revolução Federalista, o governador do Rio Grande
do Sul, vitorioso sobre os rebeldes, resolvera mandar construir um quartel
entre Santana, Alegrete e Quaraí para vigiar a zona, tanto no sentido político
, como no controle do contrabando.
O Quartel do Cati, tristemente célebre, foi edificado dentro da
melhor técnica da época, com luz a gás acetileno, água encanada e telefone.
Possuía também um poço com cobras, para forçar confissões. Os estaqueamentos e
degolas eram frequentes, bem como a
’leva’, que forçava a entrada do pobrerio para a Brigada. Seu
comandante, o coronel João Francisco Pereira, era conhecido como a Hiena do
Cati, pelas perseguições políticas e pelo extermíniode gaúchos e índios vagos
que viviam de roubos às estâncias da fronteira.
Quando as tropas do Cati vinham à cidade,
entravam como um exército conquistador, por cima das calçadas com os cavalos.
Todo o mundo se encerrava em casa, fechando portas e janelas, com medo. Era um
dito comum na fronteira:
- ‘Se Deus
quiser, João Francisco e a mulher!’
5. O NOVECENTOS
A pecuária
intensiva e o analfabetismo (entre 60 e 70% da população), bem como a
distância das charqueadas, que valorizavam o gado, faziam com que Santana e
Rivera tivessem uma estrutura econômica pré capitalista.
Nas duas cidades desenvolvia-se
um forte comércio, formando quase uma só povoação, situadas uma em frente à
outra. A separá-las, apenas um areal, que se apinhava de gente, quando havia
luta ou outros eventos.
Rivera – beneficiada pelo trem – contava com
prédios ‘modernos’ ou neoclássicos. Santana ainda era uma cidade colonial.
Nas revoluções, a população civil se
escondia nas casas de parentes ou amigos, do outro lado da fronteira.
E haviam revoluções: 1893, 1897, 1904, 1910,
1923. Todas elas iniciadas nas zonas fronteiriças do Brasil e do Uruguai, onde
o elemento rural desocupado era um risco para a paz política.
Essa estrutura nefasta começaria a mudar em
1904, quando os charqueadores
uruguaios Pedro Irigoyen e
Francisco Anaya, transladaram seu estabelecimento de Montevidéu para Livramento. Como o Brasil era o maior
mercado comprador de charque, valia a pena vir para o país vizinho.
Especialmente esta cidade, onde chegavam os trens uruguaios, todos entendiam
o espanhol – e a fronteira era tão aberta e permeável.
A firma Anaya-Irigoyen comprou seis quadras
de sesmaria no Rincão do Carolina, cinco quilômetros a leste da cidade,
bastante próximo da linha de fronteira. Foram construídos uma casa para
residência, uma escola, galpões para a industrialização do charque, velas e
sabão. Foram também instalados sete poços artesianos e um gerador de luz
elétrica.
Os operários qualificados e o pessoal de
escritório vieram de Montevidéu. A língua falada dentro da empresa era o
espanhol. Na escola, também era usado o espanhol, pois as professoras eram uruguaias. Aliás, os uruguaios seguiram
votando em Rivera, embora morando no
Brasil. E sempre nos ‘blancos’, pela influência de Dom Pedro Irigoyen.
O Saladeiro Livramento industrializava a
produção primária da região. As rendas do município quase dobraram em um ano de
sua implantação. Passados mais dois
anos, já era segunda maior empresa industrial do Rio Grande do Sul, em valor de
produção – e a 16ª do Brasil.
O Saladeiro exportava sua produção através
do Porto de Montevidéu. Esse mesmo porto
recebia e enviava os malotes do Correio de Santana. Era mais fácil
mandar as correspondências por Montevidéu, através de Rivera, que pelas
estradas do Brasil.
O progresso finalmente chegava à fronteira!
O telefone foi instalado em 1905 e a luz elétrica em 1906. Em 1910 chegou o
trem brasileiro, com muita alegria e esperança.
Em 1911 Santana tinha quatro charqueadas: Sociedade
Industrial e Pastoril, São Paulo e Bela Vista, além da primeira, .Charqueada
Livramento, chamada pelo povão de Saladeiro. Com seus quatro estabelecimentos saladeiris, constituía-se no segundo centro de
abate do estado, atrás apenas de Bagé.
As indústrias trouxeram também construções
modernas para a cidade, pois os estancieiros se capitalizaram. As antigas casas
coloniais foram substituídas por casas neoclássicas, parecidas com as de
Rivera. Eram ‘casas espanholadas’, com pátio interno. As novas residências eram
rente à calçada, com muitas janelas.
Foram construídos também muitos prédios oficiais e comerciais.
Os estancieiros começaram também a
modernizar-se, beneficiando os estabelecimentos rurais com banhos de gado e
cercas de arame. Refinaram também seus rebanhos, introduzindo gado europeu,
para conseguir mais peso. A proximidade com o Uruguai e Argentina facilitava as
compras – e o contrabando.
A ovinocultura já existia no Rio Grane desde
as Missões Jesuíticas. Seu objetivo era a lã, para proteger do frio as
populações. Apenas com o cercamento dos
campos desenvolveu-se como negócio. Foram trazidas raças europeias e a lã
passou a ter um peso muito importante
nos negócios rurais, já que a safra pagava toda a despesa anual da estância.
Prevalecia a grande propriedade rural e a
produção extensiva, com o gado solto no campo. Mas a ovelha exigia mais mão de obra e mais
cuidados, transformando os estabelecimentos rurais em empresas lucrativas.
6. O FRIGORÍFICO ARMOUR
No Oeste dos
Estados Unidos da América, região das
pradarias, nasceu um pequeno açougue, que logo começou a comercializar a carne de porco, fechada em
pipas com salmoura.
Em 1867, Phillip Armour transferiu-se para
Chicago, centro ferroviário do país, instalando ali um frigorífico. Na mesma
época, Gustav Swift se mudou para Chicago com seu frigorífico, e encomendou o
projeto de um vagão refrigerado, para que pudesse mandar carne congelada para
todo o país.
A indústria da carne expandiu-se
extraordinariamente, e logo as companhias Armour e Swift uniram suas forças
para comprar ações das vias férreas, num negócio em que três outras firmas de
carne congelada se juntaram: Wilson, Morris e Cuday. Ficaram conhecidos como os
‘Cinco Grandes de Chicago’ ou ‘Meat Trust’ – Trust da Carne.
7. ÉPOCA DA GUERRA
8. O PÓS GUERRA
9. ...E CHEGA A BR
10. A PRESENÇA NEGRA NA FRONTEIRA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Fontes de consulta
Anexos
ANEXOS
VOCABULÁRIO INDÍGENA E
AFROBRASILEIRO
1.ÍNDÍGENA
1.a. GUARANIS
-aguapé
-araponga
-araçá
-aroeira
- biboca
-biriva
-boçoroca
-cabloco
-capão
-capim
-capivara
-capoeira
-chê
-cutucar
-cipó
-cuia
-goiaba
-gravatá
-guaraxain
-guri
-jacaré
-jararaca
-jaguar
-jirrau
-joá
-lambari
-mambira
-maricá
-micuim
-perereca
-perau
-peteca
-piá
-pitanga
-tapera
-taquara
-tatu
-tiririca
-urubu
1.b. PAMPIANOS
-china
-cancha
-poncho
-guacho
-Charque
-chasque
-mate
-xiru
-vincha
-guasca
-inhapa
-guaiaca
-guampa
-cechiguana
-pampa
-tambo
2. AFROBRASILEIRO
-babá
-mucama
-moleque
-crioulo
-sanga
-cacimba
-marimbondo
-quilombo
-mondongo
-matungo
-quindim
-banzo
-calombo
-pombo
-bocó
-balaio
-capenga
-cambaio
-chimbé
-fandango
-mocotó
-fulo
-tunda
-mandinga
-quitanda
Dados sobre a autora








































