quinta-feira, 11 de agosto de 2016

FRONTEIRA GAUCHA: SANTANA DO LIVRAMENTO









































FRONTEIRA GAÚCHA: SANTANA DO LIVRAMENTO








                     



                     MEMORIAL DO RIO GRANDE DO SUL
                        CADERNO DE HISTÓRIA, no. 36
                             GOVERNO DO ESTADODO RS  –  YEDA CRUSIUS
                      SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA – MÔNICA LEAL
                  MEMORIAL DO RIO GRANDE DO SUL – VOLTAIRE SCHILLING














- INTRODUÇÃO: SANTANA DO LIVRAMENTO, A FRONTEIRA ENTRE O BRASIL E O PRATA
1. A GENTE DA TERRA
2. O GADO
3. A COLÔNIA DO SACRAMENTO
4. AS CIDADES
5. O NOVECENTOS
6. O FRIGORÍFICO ARMOUR
7. ÉPOCA DE GUERRA
8. O PÓS GUERRA
9. ...E CHEGA A BR
10. A PRESENÇA NEGRA NA FRONTEIRA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
- Fontes de consulta
- Anexos
- Dados sobre a autora



INTRODUÇÃO:
SANTANA DO LIVRAMENTO, A FRONTEIRA ENTRE O BRASIL E O PRATA

    A pradaria imensa da campanha gaúcha continua no norte do Uruguai, formando uma região homogênea e de relacionamentos.
    Esta região constituiu-se numa fronteira entre índios Pampianos e Guaranis, entre Portugueses e Espanhóis, entre os primeiros habitantes indígenas, os europeus e africanos   que chegaram depois.
    Em Santana do Livramento tudo se misturou. A convivência e a integração tornaram-se sua marca característica.


1.GENTE DA TERRA
     O território situado na margem esquerda do Rio Uruguai foi visto pelos conquistadores ibéricos como uma unidade geográfica: Banda Oriental ou Continente do Rio Grande de São Pedro.  Realmente, podemos pensar numa região contínua, sem limites naturais, como rios intransponíveis   ou grandes montanhas.
    Situado no meio de duas potências, sem prata nem ouro, sua ocupação foi tardia. Nem espanhóis nem portugueses conseguiram manter sua ocupação, sendo afinal dividido entre eles.
    Ao sul do Rio Ibicuí, estendem-se tapetes de gramíneas, numa paisagem aberta em que a planura só é quebrada pelas coxilhas arredondadas.
     È a região denominada Campanha Gaúcha e constitui-se na região  campestre  por excelência do Rio Grande do Sul. È a paisagem do gaúcho e do campeiro, cujo estereótipo difundiu-se por todo o estado.
    Os campos limpos ou pradarias estendem-se ao Uruguai, formando uma continuidade, no que se denomina vegetação uruguaiense.
    Nessas pradarias habitaram os índios Charruas, Minuanos, Bohanes. Chanás e Yarós, parcialidades dos Pampianos. Além da Planície dos Pampas, esses índios tinham em comum a língua quíchua e muitos costumes.
    Os Pampianos eram muito morenos, quase negros, com cabelos lisos e desgrenhados. Eram fortes e atléticos, com nariz aquilino. Vestiam-se com peles de animais, e alimentavam-se de carne de avestruz, capivara, veado, tatu e ratão do banhado, além de aves e peixes. Suas principais armas de caça e luta eram as boleadeiras, pedras polidas revestidas de couro e unidas entre si.
     Os Guaranis eram mais baixos, rosto redondo, zigomas salientes, cabelos lisos e escorridos. Vindos há dois milênios da Amazônia, ocuparam espaços nos vales dos rios Paraguai, Paraná, Uruguai e Jacuí. Seu sistema econômico baseava-se principalmente nas plantações de milho, feijão, mandioca e porongo, além da pesca, que dessecavam e defumavam.
    O idioma guarani era a língua geral, entendido por todos os índios da região. Os nomes da maioria dos rios e acidentes geográficos desta região são guaranis. Por exemplo:
- Uruguai – rio dos caracóis
- Ibicuí – rio das areias
- Quaraí – rio dos buracos
- Arapeí -  rio dos lambaris
- Cuñapiru – rio da mulher doente
- Taquarembó – rio das taquaras envenenadas
- Itaquatiá – pedra dos olhos d’água
- Upamaroti – lagoa clara
- Ibirapuitã – rio das árvores vermelhas
 - Mandubi -   rio dos amendoins
- Cati – rio do mato ralo
    As Coxilhas de Santana, Negra e de Haedo, pequenas elevações entre 200 e 400 metros, separam o sul do Rio Grande do norte do Uruguai. Constituem-se também em  divisores  de águas aos rios das bacias do Ibicuí, do Arapeí e do Negro. A linha divisória atual usa essas coxilhas para marcar os limites entre Brasil e Uruguai, no sistema dos pontos mais altos, entre os rios Quaraí e Jaguarão (à leste). A cidade de Santana do Livramento – ou do Parto Feliz – está assentada exatamente sobre a coxilha de Santana, antecipando seu caráter fronteiriço e de grande porto seco da região.  

2. O GADO
    Pelo Tratado de Tordesilhas o território brasileiro chegava até Santa Catarina. Todo o Rio grande do Sul pertencia à Espanha.
    Em 1580 Portugal foi anexado à Espanha, unindo-se as duas Coroas na pessoa de Felipe II, que era neto de d. Manoel, o Venturoso. Para Portugal, terminava aí o Tratado de Tordesilhas e o território situado entre o Rio Uruguai e o Oceano Atlântico, chamado de Banda Oriental (ou leste)  pelos  castelhanos, estava liberado para quem o ocupasse.
    Os primeiros ocupantes organizados em cidades foram os Ííndios Guaranis, aldeados e catequisados pelos padres Jesuítas, a partir de 1626. Para alimentar essa populações e mantê-las nos povoados, os jesuítas trouxeram gado bovino da Banda Ocidental do Rio Uruguai (atuais Argentina e Paraguai) onde já haviam   povos ou vilas,  também chamados  Missões.
    Essa criação de gado desenvolveu-se graças aos esforços dos padres e ao cuidado dos índios guaranis. Cada povoação possuía uma estância de grande  dimensão, situadas ao sul do Rio Ibicuí, onde seus afluentes formavam rincões, que guardavam e dividiam o gado. O território que hoje pertence à Santana do Livramento, foi estância missioneira, numa produção comunitária, onde os donos eram todos os índios do povoado.
    Os bandeirantes, mestiços de S. Paulo, caçavam índios para trabalhar como escravos nas suas plantações. As Missões, ao possuírem entre 3.000 e 5.000 índios, cada uma, era alvo da cobiça dos paulistas. Os guaranis foram aprisionados ou mortos. Os sobreviventes fugiram para o outro lado do rio e abandonaram seu gado.
    Esse gado ficou solto e reproduziu-se extraordinariamente. Os castelhanos e os portugueses desgarrados, índios e negros fugidos passaram a caçar o gado, para tirar o couro. Este era um produto de grande valia nesses tempos. Começou a época da Courama: não se tratava de  criar  rebanhos, mas de perseguir e desgarrotear as reses, para retirar-lhes o couro.
    Surgiu um tipo humano diferenciado, um mestiço que pertencia a dois mundos: o europeu e o indígena; moravam nas toldoarias dos índios mas vendiam os  couros  aos  comerciantes vindos do Além Mar. Eram aventureiros e elementos foragidos, homens sem lei nem rei, que viviam em condições selvagens, chamados de gaudérios ou gaúchos.
    O gado bovino, que se espalhou pelo Pampa, modificou para sempre a vida dos Índios Pampianos. Suas toldoarias, antes cobertas por folhas de palmeiras, passaram a ser cobertas por couro de vaca. Seu regime alimentar também se modificou radicalmente, passando a  carne bovina a ser a grande iguaria.
    O cavalo, também   trazido da Europa, foi uma sensação para os índios. Eles se tornaram exímios cavaleiros e temíveis guerreiros, com suas lanças e boleadeiras, agora montados.
    Apenas em 1682 os Índios  Guaranis voltariam a ocupar suas Missões, ou Povos, a leste do Rio Uruguai. Incentivados pela Coroa Espanhola, criaram novos aldeamentos e  estâncias.


3. A COLÔNIA DO SACRAMENTO
    A Colônia do Sacramento foi o grande sonho português, com a implementação de uma cidade portuguesa na foz do Rio da Prata, e a incorporação da Banda Oriental ou Continente de S. Pedro aos domínios portugueses.
   Para isso, Laguna foi fundada com o objetivo de apoiar a Colônia e povoar a região. O interesse português era enorme, pois a Coroa Espanhola proibia o comércio exterior nos  rios que compõem  a Bacia do Rio da Prata: Uruguai, Paraguai e Paraná. Esses rios correspondiam a verdadeiras estradas pelo interior da América, possibilitando um comércio muito ativo de fazendas, vinho, azeite, sal e escravos africanos. Recolhiam, na volta, couros, sebos e prata das minas de Potosi, na Bolívia.
    Desde 1640 Portugal havia reconquistado sua soberania. A colônia foi fundada em 1680, para competir com o porto de Buenos Aires. Até  1750, quando passou definitivamente ao domínio espanhol, a Colônia do Sacramento foi um importante entreposto de importação e exportação, normalmente ilegal, num incentivo ao contrabando.
    Em 1750 a Espanha trocou a Colônia pelos sete povoados missioneiros situados a leste do Rio Uruguai, aceitando a presença portuguesa até o Rio Ibicuí, afluente do Uruguai. Esse tratado, chamado de Madri, era vantajoso a Portugal, pelo grande desenvolvimento das Missões e pelo reconhecimentode seu direito ao Continente, ao menos a uma parte dele.
    O gado estava muito valorizado, a partir do início do século. Os paulistas haviam encontrado minas de ouro, prata e diamantes nas Minas Gerais e precisavam alimentar os mineiros. O gado era levado em tropas até Sorocaba e depois para as Gerais. No litoral norte e ao longo do rio Jacuí começaram a instalar-se estâncias para reter o gado e esperar os tropeiros.
    Os Índios Guaranis não quiseram    entregar suas cidades para os arquiinimigos portugueses e iniciaram uma guerra contra eles e contra os espanhóis, que haviam assinado o tratado. Entre os dois exércitos, os guaranis foram derrotados. Muitos abandonaram as Missões, empregando-se como peões. Os padres jesuítas foram expulsos dos territórios de Portugal 3e Espanha, e vieram administradores civis e militares para substituí-los.
    O Trado de Santo Ildefonso, assinado em 1777, garantiu a navegação exclusiva  pelos rios da Bacia do Prata aos espanhóis e retomou os Sete Povos. A linha da fronteira seria formada pelos divisores  de água entre as bacias do Rio Uruguai e os que se lançam ao Atlântico.   Foram estabelecidos campos neutrais ao longo da fronteira, onde  não se poderiam  contruir povoações, fortes ou guardas.
    Os portugueses dedicaram-se à ocupação do  seu território, através da doação de terras aos interessados no povoamento. Essa doação era feita pela autoridade militar e correspondia a três léguas de terra, chamada de sesmaria. A posse de propriedade de terra diferenciava socialmente o beneficiado e levava-o a defender não apenas os interesses de Portugal, mas os seus próprios.
    A decadência dos Sete Povos, nesse momento administrados pelos espanhóis, de maneira corrupta e omissa, com um tratamento ultrajante aos índios, tornou possível a conquista das Missões por quarenta aventureiros.  Eles eram comandados pelo desertor José Borges do Canto. Em 1801 a notícia de uma guerra entre Portugal e Espanha foi o estopim para a invasão, apoiados por particulares com dinheiro, panos, bois, cavalos e escravos.
    Essa conquista não teve efeito legal, mas a fronteira moveu-se  novamente até o Rio Ibicuí, confirmada pelo Acordo Provisório de 1804, entre os delegados do Vice Rei do Prata e do governador Brigadeiro Roscio.
    Portugal queria seu Continente e iria tentar conquista-lo. A oportunidade surgiu quando o Imperador Napoleão invadiu a Espanha e Portugal, na Europa.
    Os reis espanhóis ficaram presos na França, mas o regente D. João mudou sua capital para o Rio de Janeiro. . Instalado na América, a partir de 1808  assistiu de camarote à independência da Argentina e à deportação do Vice Rei espanhol. O novo Vice Rei, nomeado pelo Conselho de Regência, Javier Elio, assumiu em Montevidéu. Impedido de governar pelos rebelde, Elio  pediu ajuda a D. João, cunhado do rei espanhol.
   Em 1811,  D. João ordenou a D. Diogo de Souza, Capital Geral do Rio Grande de S. Pedro, a invasão da Banda Oriental, com o auto denominado Exército Pacificador. Os orientais e argentinos preferiram fazer as pazes com os espanhóis, desconfiados dos portugueses.
    Estes retornaram ao Acampamento de D. Diogo, às margens do Rio Ibirapuitan, fixando a fronteira no Rio Quaraí. Em 1814 começaram a ser distribuídas as sesmarias na  região  que hoje corresponde à Santana do Livramento, a antigos soldados e oficiais do Exército Pacificador.
    O binômio estancieiro e militar, que caracterizou a ocupação lusitana no Rio Grande do Sul, permitiu o alargamento das fronteiras, pois o dono de terra, gado e escravos, juntamente com seus peões, constituía uma unidade militarizada, que garantia a posse da terra.
    A ocupação espanhola visava à organização de vilas, com a doação de terras ao redor. Era um sistema mais caro que o português, com as decisões centralizadas em Buenos Aires ou  Montevidéu.
    Os diferentes sistemas de ocupação  explicam o cordão de cidades no lado brasileiro: Uruguaiana, Quaraí, Bagé.  Jaquarão, entre outras. No lado uruguaio, as cidades de Rivera e  Artigas seriam fundadas bem mais tarde.
    Havia também o interesse estratégico pelo Rio da Prata. Logo após a expulsão dos franceses de Portugal, D. João mandou vir um exército de lá, sob as ordens do General Frederico Lecór.  Em agosto de 1816, com dez mil homens,  Lecór atacou a Banda Oriental por diversos pontos da fronteira. Em janeiro do ano seguinte, entrou em Montevidéu, aplaudido pelos grandes negociantes.
    Em 1821, o Uruguai foi incorporado ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com o nome de Província Cisplatina.
    Ainda que por pouco tempo, Portugal havia chegado ao Rio da Prata, retomando sua Colônia do Sacramento.  

  
4. AS CIDADES
    Distribuídas  as primeiras sesmarias em 1814, apenas em 30 de junho de 1823 a pequena aglomeração de Nossa Senhora do Livramento vai conseguir licença para edificação de uma capela. Quando a capela ficou pronta, o padre que veio rezar a primeira missa considerou o local inóspito e alagadiço. Outra capela foi construída, na Cochilha de Sant’ana, num local bem seco.
    Em 1848 o pequeno povoado passou a ser freguesia, já como Santana do Livramento. Em 1857 foi elevado à categoria de   Vila, desmembrando-se de Alegrete, e finalmente, em 1876 passou a ser chamada de Cidade.
    Em 1828, o Uruguai havia conquistado sua independência do Brasil, ajudado pela Argentina e Inglaterra. Sendo Montevidéu uma capital estrangeirada, os produtos europeus eram comercializados no seu porto – tecidos, roupas, louças, arames – chegavam em  carretas até Santana e eram distribuídos para Itaqui, Rosário, Alegrete e S. Gabriel. As carretas voltavam com erva, banha, fumo, produtos agrícolas valorizados na capital uruguaia.
    Em 1841, Santana  mantinha sua rota comercial com Montevidéu, incrementada pelo tráfego de armas e mantimentos, em troca de couros e tropas. Foi o grande porto (seco) dos farroupilhas.
    Em 1843, O Uruguai foi dividido em dois: o sul, com sua capitalcheia de comerciantes, e o norte, ocupado pelos insurgentes, apoiados pelos argentinos  de Rosas. Montevidéu era uma cidade cosmopolita, sendo que os europeus consistiam em mais da metade da sua população.. Era a capital de um país pobre e rural. Com a guerra, muitos  estancieiros ficaram arruinados.
    Veio a Guerra contra Rosas, em que os brasileiros invadiram o Uruguai, e com as províncias argentinas, lutaram contra Buenos Aires, vencendo o Presidente Rosas. O preço das estâncias caiu pela metade e muitos oficiais brasileiros, inclusive o gral. Osório e o Gral. Souza Neto, da Revolução Farroupilha.
    Nasce aí o portunhol, dialeto falado no norte do Uruguai e no sul do Rio Grande, marcando a presença brasileira na região da fronteira. Junto com a língua, os brasileiros trouxeram os seus filhos e escravos, que eram batizados  por padres  do Brasil, como brasileiros.
   Durante a Guerra do Paraguai, depois que os paraguaios invadiram S. Borja, Itaqui e Uruguaiana, ficaram cercados nessa cidade vizinha. Em  1865, o Imperador Pedro II  veio a Uruguaiana para a rendição dos invasores e aproveitou para vir a Livramento. A cidade tinha  dez mil habitantes, um comércio florescente, e já possuía um teatro, em frente à Igreja. O Conde d’Eu, genro do monarca, escreveu no seu diário que Santana   parecia uma cidade europeia, em que as casas situavam-se  no meio de jardins verdejantes, com choupos e acácias, roseiras, pessegueiros e marmeleiros.
    A Vila de Ceballos foi criada em 1862, no Cuñapiru, pois os uruguaios temiam o avanço brasileiro. Era também uma tentativa de retomar o tráfico de mercadorias através das carretas para Montevidéu.
    Em 1867 foi criada oficialmente Rivera, 341 habitantes urbanos. Os vizinhos pediram às autoridades  para mudar a planta da cidade para junto de Santana, e não mais no Cuñapiru, como desejava o governo uruguaio. Mesmo assim, as praças principais das duas cidades estão distantes uma da outra. A Igreja e a Prefeitura, marcas do governo, mantinham a separação das cidades.
    A maior parte da população vivia no campo. A inexistência de cercas facilitava o subemprego, com famílias arranchadas dentro das propriedades. Dedicavam-se às atividade sazonais, como os rodeios e marcações, e ao contrabando. Roubavam gado num lado da fronteira e vendiam do outro lado.
    As muitas guerra e revoluções serviam para ocupar essa população nômade, que considerava a luta como um momento de liberdade e alegria, em que se podia carnear à vontade.
    A distância das capitais e  a falta de comunicação com outras cidades,  levaram a população de Santana do Livramento a procurar seus vizinhos uruguaios, desconhecendo os limites nacionais. A vivência regional levou â formação de uma mentalidade singular. As duas cidades estavam quase coladas uma na outra, vivendo como se fossem uma só, igualmente distantes de suas capitais, igualmente esquecidas por elas.
    Em 1892, o Uruguai fez um esforço imenso para unir a Capital com o Interior, investindo em cinco ferrovias até Montevidéu. Uma dessas ferrovias chegava a Rivera. Em 24 horas as pessoas podiam chegar até Montevidéu, e um pouco mais, embarcadas a Buenos Aires.
    Santana do Livramento passou a estar ligada ao Prata, não apenas recebendo e repassando mercadorias. Essa ligação se traduzia em viagens,  recebimento de jornais e livros, consultas médicas, enfim uma influência direta da cultura platina, mais próxima relativamente que a brasileira.
    Assim como o norte do Uruguai recebeu uma forte influência brasileira, o sul do Rio Grande recebeu uma influência enorme do Prata, nessa época.
    Essa  boa nova, de modernidade e facilidade de contato com duas das maiores metrópoles da América, na época, Montevidéu e Buenos Aires, foi obscurecida por outra notícia de 1895. Após a Revolução Federalista, o governador do Rio Grande do Sul, vitorioso sobre os rebeldes, resolvera mandar construir um quartel entre Santana, Alegrete e Quaraí para vigiar a zona, tanto no sentido político , como no controle do contrabando.
    O Quartel do Cati,  tristemente célebre, foi edificado dentro da melhor técnica da época, com luz a gás acetileno, água encanada e telefone. Possuía também um poço com cobras, para forçar confissões. Os estaqueamentos e degolas eram frequentes, bem como a  ’leva’, que forçava a entrada do pobrerio para a Brigada. Seu comandante, o coronel João Francisco Pereira, era conhecido como a Hiena do Cati, pelas perseguições políticas e pelo extermíniode gaúchos e índios vagos que viviam de roubos às estâncias da fronteira.
    Quando as tropas do Cati vinham à cidade, entravam como um exército conquistador, por cima das calçadas com os cavalos. Todo o mundo se encerrava em casa, fechando portas e janelas, com medo. Era um dito comum na fronteira:
- ‘Se Deus quiser, João Francisco e a  mulher!’



5. O NOVECENTOS
   A pecuária  intensiva e o analfabetismo (entre 60 e 70% da população), bem como a distância das charqueadas, que valorizavam o gado, faziam com que Santana e Rivera tivessem uma estrutura econômica pré capitalista.
   Nas duas cidades   desenvolvia-se um forte comércio, formando quase uma só povoação, situadas uma em frente à outra. A separá-las, apenas um areal, que se apinhava de gente, quando havia luta ou outros eventos.
   Rivera – beneficiada pelo trem – contava com prédios ‘modernos’ ou neoclássicos. Santana ainda era uma cidade colonial.
   Nas revoluções, a população civil se escondia nas casas de parentes ou amigos, do outro lado da fronteira.
   E  haviam revoluções: 1893, 1897, 1904, 1910, 1923. Todas elas iniciadas nas zonas fronteiriças do Brasil e do Uruguai, onde o elemento rural desocupado era um risco para a paz política.
   Essa estrutura nefasta começaria a mudar em 1904, quando os charqueadores  uruguaios  Pedro Irigoyen e Francisco Anaya, transladaram seu estabelecimento de Montevidéu  para Livramento. Como o Brasil era o maior mercado comprador de charque, valia a pena vir para o país vizinho. Especialmente esta cidade,  onde  chegavam os trens uruguaios, todos entendiam o espanhol – e a fronteira era tão aberta e permeável.
   A firma Anaya-Irigoyen comprou seis quadras de sesmaria no Rincão do Carolina, cinco quilômetros a leste da cidade, bastante próximo da linha de fronteira. Foram construídos uma casa para residência, uma escola, galpões para a industrialização do charque, velas e sabão. Foram também instalados sete poços artesianos e um gerador de luz elétrica.
   Os operários qualificados e o pessoal de escritório vieram de Montevidéu. A língua falada dentro da empresa era o espanhol. Na escola, também era usado o espanhol, pois as professoras eram  uruguaias. Aliás, os uruguaios seguiram votando em Rivera, embora  morando no Brasil. E sempre nos ‘blancos’, pela influência de Dom Pedro Irigoyen.
   O Saladeiro Livramento industrializava a produção primária da região. As rendas do município quase dobraram em um ano de sua implantação. Passados  mais dois anos, já era segunda maior empresa industrial do Rio Grande do Sul, em valor de produção – e a 16ª do Brasil.
   O Saladeiro exportava sua produção através do Porto de Montevidéu. Esse mesmo porto  recebia e enviava os malotes do Correio de Santana. Era mais fácil mandar as correspondências por Montevidéu, através de Rivera, que pelas estradas do Brasil.
   O progresso finalmente chegava à fronteira! O telefone foi instalado em 1905 e a luz elétrica em 1906. Em 1910 chegou o trem brasileiro, com muita alegria e esperança.
   Em 1911 Santana  tinha quatro charqueadas: Sociedade Industrial e Pastoril, São Paulo e Bela Vista, além da primeira, .Charqueada Livramento, chamada pelo povão de Saladeiro. Com seus quatro estabelecimentos  saladeiris, constituía-se no segundo centro de abate do estado, atrás apenas de Bagé.
   As indústrias trouxeram também construções modernas para a cidade, pois os estancieiros se capitalizaram. As antigas casas coloniais foram substituídas por casas neoclássicas, parecidas com as de Rivera. Eram ‘casas espanholadas’, com pátio interno. As novas residências eram rente à  calçada, com muitas janelas. Foram construídos também muitos prédios oficiais e comerciais.
   Os estancieiros começaram também a modernizar-se, beneficiando os estabelecimentos rurais com banhos de gado e cercas de arame. Refinaram também seus rebanhos, introduzindo gado europeu, para conseguir mais peso. A proximidade com o Uruguai e Argentina facilitava as compras – e o contrabando.
   A ovinocultura já existia no Rio Grane desde as Missões Jesuíticas. Seu objetivo era a lã, para proteger do frio as populações. Apenas com o cercamento  dos campos desenvolveu-se como negócio. Foram trazidas raças europeias e a lã passou a ter um peso  muito importante nos negócios rurais, já que a safra pagava toda a despesa anual da estância.
   Prevalecia a grande propriedade rural e a produção extensiva, com o gado solto no campo. Mas  a ovelha exigia mais mão de obra e mais cuidados, transformando os estabelecimentos rurais em empresas lucrativas.

  
6. O FRIGORÍFICO ARMOUR
   No Oeste dos Estados Unidos da  América, região das pradarias, nasceu um pequeno açougue, que logo começou a  comercializar a carne de porco, fechada em pipas com salmoura.
     Em 1867, Phillip Armour transferiu-se para Chicago, centro ferroviário do país, instalando ali um frigorífico. Na mesma época, Gustav Swift se mudou para Chicago com seu frigorífico, e encomendou o projeto de um vagão refrigerado, para que pudesse mandar carne congelada para todo o país.
   A indústria da carne expandiu-se extraordinariamente, e  logo as  companhias Armour e Swift uniram suas forças para comprar ações das vias férreas, num negócio em que três outras firmas de carne congelada se juntaram: Wilson, Morris e Cuday. Ficaram conhecidos como os ‘Cinco Grandes de Chicago’ ou ‘Meat Trust’ – Trust da Carne.


7. ÉPOCA DA  GUERRA
8. O PÓS  GUERRA
9. ...E CHEGA A BR
10. A PRESENÇA NEGRA NA FRONTEIRA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Fontes de consulta
 Anexos



     













  






ANEXOS


VOCABULÁRIO INDÍGENA E  AFROBRASILEIRO
1.ÍNDÍGENA
1.a. GUARANIS
-aguapé
-araponga
-araçá
-aroeira
- biboca
-biriva
-boçoroca
           -cabloco
-capão
-capim     
-capivara
-capoeira
-chê
-cutucar
-cipó
-cuia
-goiaba
-gravatá
-guaraxain
-guri
-jacaré
-jararaca
-jaguar
-jirrau
-joá
-lambari
-mambira
-maricá
-micuim
-perereca
-perau
-peteca
-piá
-pitanga
-tapera
-taquara
-tatu
-tiririca
-urubu
       1.b. PAMPIANOS
-china
-cancha
-poncho
-guacho
-Charque
-chasque
-mate
-xiru
-vincha
-guasca
-inhapa
-guaiaca
-guampa
-cechiguana
-pampa
-tambo

2. AFROBRASILEIRO
-babá
-mucama
-moleque
-crioulo
-sanga
-cacimba
-marimbondo
-quilombo
-mondongo
-matungo
-quindim
-banzo
-calombo
-pombo
-bocó
-balaio
-capenga
-cambaio
-chimbé
-fandango
-mocotó
-fulo
-tunda
-mandinga
-quitanda




 Dados sobre a autora